Terminei há
alguns dias o livro escrito por João W. Nery, cujo título, Viagem Solitária, é
um convite para conhecer a jornada iniciada por João, desde criança ao
descobrir-se transexual, mesmo ainda sem o conhecimento da existência do termo,
convivendo com sentimentos amargos da
falta de identidade corporal e indo mais além, a falta completamente de
identidade propriamente dita, nutrindo um vazio pela desordem de sua vida.
E João, sendo um
daqueles caras que não optam pela covardia, permaneceu firme aos seus
propósitos de enfim adequar-se a sua construção de gênero, não somente através
de cirurgia, como também, através de suas vivências. Obstinado, lutou pelo
reconhecimento de sua família e da sociedade sofrendo preconceitos, assim como
todos os seres humanos que ousam assumir uma vida diferente dos padrões
sexistas.
Entretanto, como
estudante de pedagogia e gênero, admito que outro aspecto chamou mais a minha
atenção, um aspecto que tornou-se para mim, um objetivo profissional e um
princípio pedagógico: a educação não-sexista.
O relato de João
sobre como educou o seu filho Yuri, trata-se de um ideal feminista, uma das
principais reivindicações do movimento para toda a sociedade, em uma dos
trechos, precisamente no capítulo 9, que curiosamente recebeu o título: “Difícil
ser macho”, João é interpelado por Yuri quando este ainda tinha 6 anos de
idade:
“- Pai, menino
que não gosta de futebol é viado?”
Acredito que a
maioria dos pais rapidamente responderia negativamente ou discorreria sobre as
coisas boas do futebol, mas estamos falando de João, um homem transexual,
heterossexual e feminista, que fez a diferença na vida de seu filho e decidiu
pela via mais difícil, porém mais honesta e verdadeira possível:
“Falei que homem
não tem que gostar de futebol e nem gostar de boneca. Que ser corajoso é poder
demonstra o afeto e dizer o que pensa. Falei do preconceito das pessoas em
relação a quem tem opção sexual diferente. Mostrei a foto de uma amiga que
tinha sido homem. Ele olhou o retrato e a achou bonita. Pensei que era cedo
para ele compreender a minha história. Queria que estivesse pronto e, quem
sabe, pudesse se orgulhar dela.”
E mais tarde,
Yuri confirma que a educação não-sexista, é possível e o orgulho torna-se
visível pela história de lutas e conquistas de seu pai. O menino cresce livre
de preconceitos, desprendido do conservadorismo, e constrói seus princípios
morais sem “moralismos”. Um projeto pedagógico que poderia servir de exemplo
para muitos educadores e especialistas do campo.
Espero,
inclusive, contar com essa experiência inovadora na elaboração de minha
monografia, no qual, em um dos seus capítulos irá relatar sobre projetos
educacionais com relação a gênero e diversidade sexual que apresentaram
resultados positivos na promoção da cidadania e desconstrução de preconceitos.
E assim, mesmo
não possuindo “envergadura” crítica e assumindo completamente a admiração que
me fez fã desse escritor maravilhoso, acredito que minha opinião pode ser
levada em consideração, afinal, é notável durante a leitura do livro, a vocação
de João W. Nery em alcançar, através de uma história verídica sem os truques da
ficção, como também, sem menosprezar sua cultura e inteligência, qualquer tipo
de leitor.
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