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| Thaís de ex-normalista à futura produtora cultural |
O artigo apresentado
faz parte do método de avaliação da disciplina Magistério das disciplinas
pedagógicas do Ensino Médio, ministrada pela Professora Gelta Terezinha Ramos
Xavier e tem como proposta, verificar a aprendizagem da fundamentação teórica
no qual se construiu o conteúdo da disciplina em relação à realidade das
práticas curriculares e profissionais durante a formação docente no magistério.
Acredito que a atividade proposta foi importante na medida em que ofereceu uma
ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre a realidade das
normalistas e com isso exercitar a minha consciência para uma pesquisa crítica
e refletida teoricamente.
Para isso, introduzimos
o método da entrevista e realçamos nosso olhar antropológico para as falas de
nossos (as) entrevistados (as) que externam vivências diversas, culturalmente
construídas e ricas de práticas socializantes. Durante as entrevistas não é
difícil encontrar diferentes desvios que se aprofundam em abordagem que
poderiam ser tomadas ou não, segundo o critério de foco de cada pesquisador.
A princípio tomei como
abordagem principal analisar as razões que motivam uma normalista a não seguir
com sua carreira de formação, pois, estabelecer este tipo de interrogação além
de trazer ao meu conhecimento um estudo que há algum tempo já pensava em
realizar me faz pensar também, nas pessoas que, como eu, fazem o caminho
inverso, ou seja, passam anos buscando certo tipo de formação e acabam optando
pela carreira na educação. E ainda, a abordagem além de otimizar meu tempo,
pois tinha somente uma pessoa acessível para ser entrevistada e para melhorar,
a pessoa em questão não seguiu na carreira do magistério.
A revista realizada
informalmente através de uma conversa gravada demorou cerca de uma hora,
primeiramente solicitei que Thaís, uma jovem de 20 anos de idade, branca, de
classe média, moradora do município de São Gonçalo, região metropolitana do
Estado do Rio de Janeiro e estudante, prestando exames de ingresso para
Produção Cultural, escrevesse em meu caderno seus dados básicos e de sua
formação, logo me surpreendo ao constatar que Thaís, começou sua formação na
escola pública Instituto Clélia Nanci, onde cursou o primeiro e o segundo ano e
concluiu o terceiro ano em uma escola particular Colégio Santa Catarina, ambos
em São Gonçalo.
Interessei-me em saber
o porquê da mudança de escola no último ano e daí, sua fala começou a me
despertar para novas possibilidades de foco.
Em seu relato Thaís
informa que se matriculou no Instituto Clélia Nanci porque sua mãe além de não
querer mais pagar os seus estudos e queria que sua filha ainda sim, obtivesse
uma boa educação e segundo princípios baseados no senso comum, “diziam” que o
Instituto Clélia Nanci seria uma boa escola. Disse Thaís, que sua mãe também
pensava que a profissão era “bonita” para a mulher, ou seja, idealizava o
magistério como uma profissão própria aos dotes femininos. Nesse momento, percebo
que Thaís espontaneamente diz: “Acho que foi por isso que minha mãe insistiu
para que eu fosse para o “Clélia”, sempre fui meio “homenzinho”, com
brincadeiras brutas de menino e acho que minha mãe queria que eu ficasse mais
feminina.”
Logo, inevitavelmente,
percebo outra possibilidade de foco nas questões de gênero e incluir também
elementos de pesquisa histórica para discutir a feminização do magistério
frente às culturas juvenis e currículo.
Continuo a entrevista e
retornando ao ponto de origem insisto no questionamento sobre a mudança de
escola e ela diz que mudou, pois, interessou-se em prestar o vestibular para
produção cultural e segundo seus amigos, a escola particular daria mais
recursos ao seu objetivo e afirmou: “- O Clélia estava uma bagunça!” Logo em
seguida, Thaís parece refletir sobre o que disse, mas retorna ao assunto
complementando com mais uma informação: “ – Engraçado essas coisas né?! Apesar
de todos os problemas do Clélia Nanci, foi o único lugar em que pude estudar na
companhia dos rapazes, pois no Instituto Santa Catarina não aceitavam a
matrícula dos meninos.”
Sabendo de sua mudança
de curso com o objetivo de prestar vestibular para outra carreira, iniciei uma
série de indagações sobre os motivos de não continuar no magistério, peculiarmente
Thaís conta que despertou para a produção cultural enquanto estagiava na
educação infantil, pois, sempre participava as organizações teatrais e
atividades de festa e musicais com as crianças e ao mesmo tempo a não-aceitação
de suas colegas de normal, evidenciava estar “fora do perfil“ de professora.
Com relação a essa exclusão, a jovem relata que devido a sua personalidade
contestadora, suas vestimentas em um estilo mais moderno, a utilização de
tatuagens e alargadores, contribuíram para certa “marginalização” dentro da
escola: “não era vista com bons olhos”, mesmo sendo uma das melhores
estagiárias em nível intelectual e profissional, como também na socialização
com as crianças, se considerava afetuosa.
Insisto no assunto
sobre sua “atitude contestadora” e a mesma conta que achava um absurdo e
injusto para algumas crianças, ter que rezar a “ave-maria” e o “pai-nosso”,
pois sabia da constituição familiar delas e que não aprovariam uma imposição
cristã sobre suas vidas e mesmo católica, com a obrigatoriedade da “ave-maria”
e por vontade própria resolveu mudar e na hora das orações ela não o fazia com
as suas turmas e ao invés disso, cantavam a música do “lanchinho”.
Entre suas experiências
como estagiária, a questiono se não havia momentos positivos em que talvez a
fizessem pensar em continuar no magistério, ela responde que sim e relata que o
melhor da profissão era “ver as crianças chegarem à escola sem saber andar e
falar e saírem no final do ano, correndo, cantando e o melhor, dizendo o meu
nome. ”Em seguida ela espontaneamente esbraveja: “Como é possível alguém deixar
um bebê na escola que não sabe falar e nem andar?!”
Para encerrar a
entrevista, peço que me conte sobre o que quiser e ela curiosamente relata um
episódio, a seu ver, engraçado. Quando muitas crianças da pré-escola com idades
entre 2 e 3 anos, consideradas as mais “levadas”, se jogaram na lama do pátio
onde brincavam e que parecia estarem comendo biscoitos de chocolate, as
estagiárias, incluindo Thaís, ao se aproximarem do grupo perceberam que não
estavam comendo chocolate e sim as fezes da fralda de uma delas. Foi um
verdadeiro “pandemônio”, todas correram para lavar as crianças que segundo,
Thaís, “comiam cocô da fralda mais fedorenta de todas”.
Finalizamos a
entrevista com muitas risadas em um clima tranqüilo que fez com que a partir
das leituras realizadas durante o curso de disciplinas, realizasse algumas
análises sobre os relatos das práticas de Thaís. Mesmo já ricas em conteúdos de
vida, necessitam de reflexão teórica que me possibilite pensar a realidade de
uma maneira crítica.
De início, pensando a
subordinação da jovem aos princípios do senso-comum, que, no entanto tem suas
bases na história social evidente no cotidiano de muitas famílias, que ainda
acreditam na mitologização da maternidade restrito ao gênero feminino, assim
como esse princípio pode desvalorizar profissionalmente a professora, enquanto
“tia”, “responsável pela primeira formação do homem”. É o que nos expõe a fala
de Thaís sobre os anseios de sua mãe ao desejar que sua filha se torne mais
feminina a partir da escolha de sua carreira como professora. Este fato é
observável, de acordo com Leonor Maria Tanury, desde surgimento de um fenômeno
conhecido como “Feminização do Magistério”, quando as mulheres, por necessidades
da nova realidade capitalista, que faz os homens migrarem para profissões mais
vantajosas no final do século XIX e abrem espaço para as mulheres que, apoiadas
pelo mito do “dom materno” encontram possibilidades no mercado de trabalho
através do magistério.
Em seguida, verifico a
preocupação da jovem em identificar-se enquanto sujeito na profissão escolhida
pela mãe, que mesmo gostando do estágio e das crianças, não deseja seguir em
frente, não se reconhece no magistério e a partir disso, remeto-me à Gelta
Teresinha Ramos Xavier em sua interpretação de Lukács em que afirma que a
posição de optar ou se abster de uma atuação toma sentido de negação ou afirmação
de “determinada situação, estrutura, instituição, lugar e tempo”, ou seja, são
os fatores que contribuem para a nossa escolha e no caso a de Thaís, em que sua
realidade e condições materiais e suas relações sociais são determinantes para
realizar uma mudança de opção.
Ainda em Lukács,
percebemos nas experiências da jovem Thaís, uma relação estável de seu trabalho
como estagiária na educação infantil e a formação de uma consciência crítica
quanto às normas estabelecidas, o fato de sua não-identificação com a profissão
e o fato de ser discriminada por ser diferente, por não se enquadrar-se dentro
de um perfil socialmente imposto somado a isso, suas vivências e sua formação
identitária acabam por direcioná-la para outras opções que, de acordo, com suas
expectativas, poderia ser mais bem aceita e desenvolver suas capacidades
intelectuais e culturais.
Sendo assim, houve uma
reorganização de suas escolhas que a fizeram repensar sua vida e suas
manifestações enquanto sujeito no mundo do trabalho e em suas relações sociais,
inclusive familiares.
Considerações
Finais
Escrever este texto
ganhou uma dimensão um tanto diferente em meus estudos durante o curso da
disciplina de Magistério, primeiramente ao analisar a realidade a partir da
realidade de uma jovem normalists durante o contexto da “era Lula”, em que sua
faixa etária representava cerca de 30% da população brasileira, mesmo
pertencente a uma faixa privilegiada economicamente onde constavam cerca de 60%
de jovens brancos matriculados no Ensino Médio. Sendo, na época, uma das 40.000
estudantes no Curso Normal em uma das 96 escolas da rede pública do Estado do
Rio
Assim como todos os
matriculados no Curso Normal, Thaís passou pelas 5.200 horas-aula abrangendo um
currículo que, segundo, sua opinião seria insuficiente para adequar os futuros
professores a realidade educacional. E mesmo não se encontrando na profissão
que se preparava, terminou o curso por motivações familiares.
Nos dias de hoje,
Thaís, continua estudando para entrar na faculdade e enfrenta uma terrível e
injusta competição para alcançar o ensino superior a profissão que deseja,
enquanto isso, precisa trabalhar, porque apesar de ter uma família
economicamente estável, prefere “ganhar seu próprio dinheiro”, inclusive para
se locomover. E ainda, continua contestadora, com valores familiares arraigados
e uma visão crítica da realidade que a cerca.
Com todas essas
premissas, acredito que meu questionamento mais complexo seria: Como a
sociedade pôde dispensar tão facilmente uma jovem que enriqueceria tanto a vida
de nossas crianças?
Bibliografia
XAVIER,
Gelta Terezinha Ramos. Trabalho, culturas juvenis e currículo
-
Currículo, formação e trabalho docente: entre tradições, costumes e leis.
COSTA,
Gilmaisa Macedo da. Lukács e as funções da consciência na reprodução social.Outubro.
Revista do Instituto de Estudos Socialiastas. Editora Alameda. n° 19. Campinas,
2011.
TANURY,
Leonor Maria. História da formação de professores. Revista Brasileira de
Educação.n° 14. Maio, junho,julho e gosto, São Paulo. 2000.

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